Ciranda de livro Kumalè: um pra mim, um pra você

maio 16th, 2012 § 151 Comentários

Hoje tem ciranda do livro O mundo à mesa – preceitos, mitos e tabus da gastronomia do chef Kumalè, pela Saberes Editora (Campinas/SP), que me mandou dois exemplares, um deles para sorteio entre vocês.

Chef Kumalè é Vittorio Castellani, do Couscous Clan (ó que nome genial, vai vendo), um jornalista italiano, colunista de revistas de gastronomia e turismo européias, que considera-se um gastronômade, ávido que é por descobertas sobre os hábitos alimentares mundo afora. Lendo seu livro dá vontade de ser uma mosquinha só para poder assistir às suas aulas na Universidade de Ciências Gastronômicas de Pollenzo ou na Universidade de Siena para o Master em enogastronomia.

Eu não sei quanto à você, mas eu adoro os livros de gastronomia quando vão para além das receitas, lançando-se sobre os seus aspectos culturais, antropológicos, religiosos, sociais, políticos, econômicos, pessoais. Que os momentos mais importantes da vida dos seres humanos acontecem em torno da comida, testemunha muda da história da humanidade, todo mundo já sabe; que a gente é o que come também, mas aqui Kumalè aborda as regras alimentares que regem o comportamento das civilizações dos cinco continentes, determinando uma dinâmica que, num mundo globalizado, acaba por nos atingir a todos, seja durante uma viagem, seja por conta de um vizinho judeu, da mudança para um bairro japonês, para melhor entender um livro, um filme, o mundo, e até a nós mesmos.

Feitas as introduções e considerações gerais do autor, a primeira parte do livro aborda as regras alimentares de religiões como o Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo, Sikhismo, Budismo e Ortodoxia ocidental, seus preceitos, alimentos lícitos e ilícitos, rituais de abate, as festas religiosas, etiqueta à mesa, e muito mais do que os nossos parcos conhecimentos de almanaque sobre indianos que não comem carne de vaca. Um exercício e tanto de despregar os olhos dos nossos próprios umbigos, de entendimento e respeito às diferenças.

Num segundo momento, não menos interessante, o livro associa os ciclos da vida e rituais de passagem ao alimento, desde o nascimento e batismo (como o seudat mitzvá que é um banquete que os judeus oferecem após a cerimônia de batismo); a iniciação à idade adulta (como o seijin no hi, dia da maturidade para os japoneses comemorada aos 22 anos, ou o quinceañera, os 15 anos das meninas em muitos países latinos, semelhantes às nossas comemorações de debutantes); o cortejo, o namoro e o casamento (quem não se lembra do filme Casamento Grego?); e, finalmente, a morte (como a comemoração dos defuntos Día de los Muertos, no México, que eu até tatuei, de tão lindo que eu acho), todos eles celebrados através de banquetes específicos para cada situação.

E vai além, associando o alimento aos ciclos da mãe terra, que determinam sacrifícios, cerimônias e ritos de semeadura, colheita e transumância (migração de rebanhos, no caso, mas pode ser de gente também) que marcam alguns dos momentos mais importantes em diversos calendários, como a Festa da Lua e a da Primavera dos chineses; o Novo Dia Persa (ano novo) no Irã; o interessante Festival Homovo, que caçoa da fome quando chega a chuva em Gana, na África – exatamente agora em maio – quando milho e sorgo são plantados para produzirem farinhas; e Pachamanca, o banquete para a mãe terra no Peru.

Aborda, ainda que superficialmente, alguns tabus e alimentos medicinais, através dos conhecimentos da ayurveda e da cozinha medicinal chinesa. Percorre distâncias entre cozinhas de palácios e a street food, menciona a hibridização de culinárias (fusion), e fecha com dois capítulos bem legais. Um de receitas típicas de algumas destas culturas, algumas tradicionais e deliciosas para nós, outras capazes de nos causar vertigens como o Porco-espinho à gitana, Chow chow refogado – é, aquele cachorrinho mesmo -, a Sopa de cobras, escorpiões e galinha velha dos chinesas, as Larvas de besouro com verduras do Congo, e algumas “alucinantes” como Bhang Lassi, bebida à base de maconha e leite, de Benares. O outro capítulo final, só de orações para a mesa, uma de cada religião.

Enfim, um livro curioso, aparentemente pretensioso por abordar tudo isso em 237 páginas, mas ao final a gente conclui que trata-se de um panorama bem amarrado (graças à escolha assertiva dos aspectos abordados) e instigante, capaz de escancarar as portas da nossa percepção para a diversidade e para o universo de possibilidades gastronômicas que tem lá fora.

O mundo à mesa – preceitos, mitos e tabus da gastronomia, do Chef Kumalè, pela Saberes Editora (Campinas/SP), em 2011.

Mas, voltando à ciranda, quem ficar afins de concorrer ao outro exemplar que eu tenho aqui, e que vou despachar com algum mimo meu, que eu ainda não sei o que é, responde aqui nos comentários: Qual o alimento ou hábito alimentar que te embrulha o estômago, te causa vertigem, estranhamento?

A gente abre a roda a partir de agora até às 11h59 do próximo domingo, dia 20, quando acaba a nossa ciranda, tá? Cada leitor participa uma só vez, endereço para envio em território nacional, e eu tenho até 15 dias para enviar depois da publicação do resultado, na segunda 21. Esquema de sorteio númerico entre as respostas válidas.

Vamos todos cirandar?

As receitas de Frida Kahlo – da série O amor e a comida

junho 13th, 2011 § 41 Comentários

Frida Kahlo para mim é uma espécie de santa de devoção. Muito mais do que a sua instigante obra é a sua natureza que me arrebata (no presente porque Fridas não morrem), sua capacidade de transformar a sua desgraça em beleza e legado. Uma mulher de uma ousadia e coragem sem precedentes; uma revolucionária, um raio, um trovão, uma louca pela vida, pela arte, pela política e pelo amor, mas que desde cedo teve a vida prometida à madrinha morte. E morreu muitas vezes.

Quando eu achei que já sabia tudo sobre Frida, ganhei de presente de Nando, o livro O Segredo de Frida Kahlo, do mexicano Francisco Haghenbeck, mais um relato de sua estonteante vida na terra com um viés bastante peculiar, que é o Livro da Erva Santa, onde Frida anotou todas as receitas de sua vida, de pratos que preparou para Diego Rivera, o seu grande amor, calvário e ruína, para Trotski, e um sem-fim de artistas e revolucionários que frequentavam as festas louquíssimas em sua Casa Azul regadas a tequilas, sangritas, picos de gallo, quesos panela e antojitos. São receitas que acompanharam todos os momentos de sua vida, desde as deliciosas receitas de sua ama de leite, as que a sua irmã Matilde preparava-lhe após o grave acidente de ônibus que sofreu, as italianas de sua grande amiga e amante Tina (cuja presença em sua vida foi de fundamental importância), até as que aprenderia mais tarde com a mais improvável das rivais, Lupe, primeira mulher de Diego, de personalidade forte e doida, que preferia sofrer acompanhando sempre a trajetória tórrida de amor incessante de Diego a não vê-lo e não tê-lo de jeito algum.

Todas as vezes que acho que estou sofrendo, recorro a Frida e percebo o quanto são minúsculas e fúteis as minhas insatisfações, chego a me envergonhar. O fato é que não consigo soltar o livro desde ontem. Da cama para o banheiro, para a beira do fogão e até mesmo em 30 segundos de sinal fechado. Reconheço a mim em sua alegria em celebrar a vida, em sua intensidade por vezes prejudicial, em sua passionalidade.

O fato, meus amigos, é que eu estou conhecendo a melhor comida mexicana pelas mãos de Frida. Frutas exóticas, toda sorte de chiles, feijões, milhos, queijos frescos, frangos muitos, especiarias, mel, chocolate, amendoim, abacate, alho, leite, doces aromatizados com água de flor de laranjeira, pães de açúcar… estes eram os ingredientes que habitavam a cozinha de Frida e pretendo que frequentem também a minha nos dias em que eu precisar evocá-la.

Tô adorando e SUPER recomendo, embora eu seja suspeita quando o assunto é a moça em questão. Mais uma vez, a comida no centro do furacão.

Brasil ritmos e receitas

abril 17th, 2011 § 9 Comentários

Mais do que as receitas da Morena Leite (que eu adoro), mais do que o projeto gráfico e fotos (que eu acho que não fazem jus ao formato do livro), o que eu mais gosto no Brasil ritmos e receitas, de Morena Leite, é a ambiência da obra, graças ao cedê que acompanha o livro, com releituras de canções clássicas da música brasileira que se referem à culinária, por Mariana Aydar, com produção de Maurício Tagliari. Vatapá de Caymi, Vendedor de bananas de Benjor, Feira de Mangaio de Sivuca, Jurubeba de Gil, Menino das Laranjas de Theo de Barros, e duas inéditas, Amigos bons (de Junior Barreto, Bactéria e Otto) e Banana bacana de Mauricio Tagliateri, fecham o repertório que eu gosto inteiro e ouço muito.

Morena e Mariana são velhas amigas de Trancoso e ouvir o disco é como ver as duas na cozinha, uma no fogão e outra no violão, com amigos ao redor e mar à vista, comendo, bebendo e vivendo. Uma festa.

Para mim, que relaciono música com comida o tempo inteiro, adoro cozinhar ouvindo música, casa cheia e muvuca na cozinha, esta trilha é top hits de comer, e bomba lá em casa.

Ponto para as meninas.

Vou deixar para vocês um aperitivo, que na minha opinião, é das melhores coisas do disco, não deixem de ouvir!

http://www.youtube.com/watch?v=8jrXq10chP4&feature=related

Se quiser saber mais sobre a Mariana Aydar, aqui. Se quiser saber mais sobre a Morena Leite aqui, no site do seu restaurante Capim Santo, que abre com Vatapá por Aydar, daí você já ouve um pedacinho de outra faixa, também das melhores.

Brasil, ritmos e receitas, de Morena Leite; pelas Editoras Boccato e Gaia, São Paulo, 2006. R$148 na Livraria Cultura.

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